Introdução
Um levantamento recente conduzido pelos estúdios Clarice, Estratégia Latina e Instituto Ideia revelou que a aposta online não é mais apenas um passatempo para muitas mulheres brasileiras. Segundo a pesquisa “Mulheres e Bets”, 42% das mulheres no país já apostaram ou ainda apostam em plataformas digitais, sendo 20% ainda ativas e 22% que já pararam. A pesquisa aponta que o comportamento de apostar está cada vez mais ligado a desafios financeiros e à busca por renda extra, sobretudo entre aquelas que têm filhos.
Desenvolvimento
Os dados indicam que mulheres com filhos apostam em média 1,6 vezes mais que aquelas sem descendentes, refletindo uma correlação direta entre responsabilidade familiar e a procura por soluções rápidas de dinheiro. A psicóloga clínica Laynara Paiva, de Brasília, observa que a “promessa de renda extra” ganha força em contextos de vulnerabilidade econômica e emocional. Já Denise Milk, de Triunfo (RS), alerta que quando a aposta deixa de ser recreativa e passa a ser vista como uma estratégia para quitar contas, o risco de se engajar em um ciclo de perdas aumenta significativamente.
Os motivos que levam as mulheres a apostar online são variados. A pesquisa classificou as principais razões em uma lista de porcentagens: ganhar dinheiro de forma rápida (22%), divertir-se (19%), ver boas oportunidades de lucro (18%), curiosidade (17%), complementar a renda e ajudar nas despesas básicas (16%), sentir emoção e adrenalina (13%) e quitar dívidas (11%). Esses números mostram que, embora o entretenimento ainda esteja presente, a motivação econômica domina.
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As especialistas destacam que a aposta pode evoluir de um simples jogo para uma compulsão, quando o indivíduo começa a depositar dinheiro na esperança de resolver problemas que pertencem a outras áreas da vida. Paiva enfatiza que “não deveria nem mesmo ser considerada recreativa”, pois traz riscos perigosos para famílias brasileiras.
As consequências desse comportamento são multifacetadas. A combinação de expectativa, recompensa e antecipação pode levar a um ciclo de perdas, onde a pessoa tenta recuperar o dinheiro perdido, aumentando ainda mais o risco. Esse padrão pode comprometer a renda familiar, gerar culpa, vergonha e conflitos domésticos, além de sintomas psicológicos como ansiedade, irritabilidade, insônia e dificuldade de concentração, conforme aponta Milk.
Em termos de perfil, a pesquisa mostra que 45% das mulheres autodeclaradas pardas apostam ou já apostaram, enquanto 39% são brancas e 37% pretas. Além disso, 30% das mulheres jogam mais à noite ou de madrugada, em contraste com 20% dos homens, indicando um padrão de uso mais discreto e escondido.
O levantamento combinou estudos qualitativos e quantitativos. Foram ouvidas 60 mulheres de 18 a 58 anos, das classes C, D e E, de estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco e Sergipe, nas entrevistas realizadas em junho e julho de 2026. A enquete quantitativa contou com 2.008 respondentes em todo o país entre 8 e 9 de julho de 2026, seguindo a distribuição populacional do Censo de 2022 e da PNAD 2025 do IBGE.
Conclusão
O cenário apresentado pela pesquisa evidencia que a aposta online tem se tornado um recurso de sobrevivência para muitas mulheres brasileiras, especialmente aquelas com responsabilidades familiares. Enquanto a intenção inicial pode ser de entretenimento, a pressão econômica e a promessa de ganhos rápidos transformam o jogo em uma armadilha que pode levar a perdas financeiras, psicológicas e familiares. É fundamental que familiares, amigos e profissionais de saúde mental estejam atentos aos sinais de alerta – aumento progressivo das apostas, uso de recursos destinados a outras necessidades, pedidos frequentes de empréstimos e alterações emocionais – e que abordem a situação com empatia, evitando acusações e incentivando a busca por ajuda especializada.
