Relatório da IFI aponta para déficits primários recorrentes e dificuldades para cumprir metas fiscais
O próximo presidente eleito em outubro de 2026 enfrentará um cenário fiscal desafiador, marcado por déficits primários recorrentes, dificuldades para cumprir as metas do arcabouço fiscal e uma trajetória crescente da dívida pública. Esse é o diagnóstico apresentado no Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF) de junho, divulgado pela Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão vinculado ao Senado Federal.
De acordo com o relatório, as projeções para a evolução das principais variáveis econômicas e fiscais são consistentes, mesmo sem considerar eventuais reformas estruturais que possam ser implementadas nos próximos anos. A IFI levou em conta as incertezas provocadas pela alta dos preços do petróleo em razão dos conflitos no Oriente Médio e a implementação da reforma tributária sobre o consumo, com impactos mais expressivos sobre as finanças de estados e municípios.
Crescimento moderado e juros elevados
O RAF projeta um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2,0% em 2026 e de 1,8% em 2027, com uma média de 2,3% ao ano nos anos seguintes. A inflação deve ser de 5,0% em 2026, 4,0% em 2027 e 3,5% em 2028, com convergência para o centro da meta nos anos posteriores, quando a inflação deverá se estabilizar em torno de 3% ao ano. Os juros reais também devem permanecer elevados, com uma taxa básica Selic que recue de 14% ao ano em 2026 para 12% em 2027, alcançando um patamar próximo de 8% no médio prazo.
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Receitas e despesas
Pelas projeções da IFI, as receitas primárias líquidas devem corresponder a 18,9% do PIB em 2026 e a 18,7% em 2027, recuando gradualmente para cerca de 18,3% do PIB ao longo do horizonte analisado. O relatório prevê que a elasticidade entre receita e PIB caia do atual patamar de 1,4 para 1, o que significa que cada 1% de crescimento da economia deverá resultar em um aumento de 1% na arrecadação do governo.
As despesas primárias devem passar de 19,2% do PIB em 2026 para 19,3% em 2027, atingindo 19,9% em 2032 e se estabilizando em torno de 19,4% do PIB nos anos seguintes. As estimativas da IFI divergem das projeções apresentadas no Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) de 2027, em tramitação no Congresso Nacional.
Risco de insustentabilidade da dívida pública
O relatório aponta a continuidade dos déficits primários efetivos e projeta um aumento persistente da relação entre a dívida pública bruta e o PIB entre 2026 e 2036. A IFI alerta que seria necessário gerar um superávit primário de 2,1% do PIB por ano para estabilizar a relação entre dívida e PIB. Partindo de um endividamento bruto de 80,1% do PIB registrado em abril de 2026, a instituição projeta que esse indicador alcance 82,5% ainda neste ano, ultrapasse 100% em 2032 e atinja 115% do PIB em 2036.
Ao concluir o relatório, os diretores da IFI afirmam que a instituição busca contribuir, de forma técnica, neutra e apartidária, para o debate sobre um dos principais desafios do próximo governo: o equilíbrio fiscal e suas implicações.
